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sábado, 23 de abril de 2011

Juventude empacada

Depois de um tempo sem escrever pra este blog (na verdade, têm outros textos ainda em produção, mas tratam-se de contos que ainda vão demorar para serem publicados) voltei para tocar num assunto que vem chamando a atenção. No texto anterior, escrito no fim do primeiro turno da eleições, comentei sobre o núcleo jovem dos apoiadores de Marina da Silva pra presidência. Ao contrario do que ocorre em outros países, donde os jovens se mobilizam para votar em um candidato renovador, o voto da "onda verde" de Marina da Silva foi o voto de uma juventude majoritariamente conservadora, como ficou comprovado no segundo turno onde boa parte deles apoio incondicionalmente o candidato tucano.

Recentemente vemos demonstrações de que parte da nossa juventude não é apenas apática em relação a política. Cada vez mais jovens estão demonstrando seu ódio e preconceito. Fica bem evidente a vocação de parte da geração Y brasileira possui para o ultra-conservadorismo. Tá certo que isso não chega lá a ser novidade. Vemos cada vez mais comunidades que incitam o ódio em redes sociais, organizações de "movimentos separatistas" estaduais que não economizam pra falar mal da cultura trazida pelos migrantes e não é necessário comentar as inúmeras agressões de pitboys contra homossexuais nas grandes cidades do país. 

Engraçado é que essa guinada de um naco da juventude brasileira para o que existe de pior no pensamento conservador é impulsionada pelas redes sociais. Além das já conhecidas comunidades de orkut que incitam o ódio e o preconceito - que já causavam muita dor de cabeça para a polícia e o Google - vemos também a proliferação de perfis ultra-conservadores, alguns até beirando o fascismo, em redes sociais como o Twitter que não se incomodam de  despejar rancor contra atos progressistas tanto do governo e de movimentos sociais e de manifestar a sua preocupação com a tradição, familia e propriedade. Também vale apena lembrar dos twittaços preconceituosos que atacavam minorias ou que defendiam personalidades que incitavam o ódio na sociedade, muitas vezes fazendo eco para essas declarações de ódio. Não é raro ver que muitas dessas páginas e perfis em redes sociais possuem uma audiência significativa.

Pior é ver que nossa juventude está indo na contramão em um momento que mobilizações juvenis têm sido significantes para a ascensão e queda de governos no mundo inteiro, ajudando na renovação da política. Do conservadorismo "inofensivo" dos anéis de castidade com patrocínio de super astros ao ódio escancarado dos pitboys contra minorias nas redes sociais ou mesmo em locais físicos como a Avenida Paulista, nossa juventude tem feito um papel preocupante na reação contrária a conquista de direitos que muitos setores da sociedade brasileira lutaram por muito tempo para conseguir. 

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

A Reforma Eleitoral e a Internet: Fala Sério!

O Senador Eduardo Azeredo (PSDB/MG) deveria passar mais tempo na internet, estudar como ela funciona para ver que ela é totalmente diferente da imprensa tradicional que conhecemos. Assim não tentaria cometer coisas como o artigo 45 da proposta para reforma eleitoral. O artigo prevê que a internet devera ser submetida às mesmas restrições presentes na TV e no radio durante o período de eleições. Serão proibidos os artigos que opinem sobre os candidatos e os partidos. Charges não serão permitidas. Entrevistas têm de ser com todos os candidatos.

Porém, se sites e blogs ficarão limitados a pura apatia política, os políticos que pretendem se candidatar poderão fazer uso da internet ora como meios de marketing político ora como forma de arrecadação.

Ao contrario do que o senhor Eduardo Azeredo aparenta pensar, a internet, diferente da maioria dos meios tradicionais como o radio e a TV, não é coordenada somente por grupos de comunicação bem articulados. É formada acima de tudo pelos usuários que não são meros espectadores como nos meios tradicionais e sim os seus maiores colaboradores. Permite, dentre outras coisas, por meio de blogs ou paginas pessoais, se tornarem formadores de opinião capazes de rivalizar com a própria mídia tradicional.

Por exemplo, quem vai visitar o blog Vi o Mundo vai encontrar matérias muitas vezes em prol da esquerda tradicional e contra os partidos de direita. Tem como seu contraponto o blog do Reinaldo Azevedo, hospedado no site da revista Veja, que traça uma visão negativa da esquerda tradicional e vê a direita com bons olhos. Longe do mundo dos jornalistas já conhecidos, ganham fama blogs anônimos como o Cloaca News e o Coturno Noturno (exemplo também utilizado pelo jornal Valor). O Cloaca alia-se ao governo Lula e tem uma visão negativa da oposição, principalmente do governador paulista José Serra. O Coturno, de autoria de uma pessoa que se autodenomina Coronel, traça uma visão negativa de Lula e de sua pretendente a candidatura para presidente Dilma Rousseff.

Agora, eu me pergunto, se os pretendentes a candidatos podem realizar seu marketing político na internet, mas os usuários não poderão opinar sobre esses candidatos, como ficam blogs como o Dilma13 que mesmo sendo de apoio a uma pretendente a candidata a presidente da republica, não tem qualquer ligação com a própria Dilma? E se o jornalismo deve conter ser igualitário entre os candidatos como ficam os sites jornalísticos ligados a partidos políticos?

E no mínimo patético, enquanto lá fora sites como o Huffington Post e o Politico.com tem ganhado respeito perante o publico justamente por serem opinativos, aqui temos que conviver com projetos políticos cujo retrocesso é digno do governo militar, nos mantendo em algum lugar do sé digno do governo militar, nos mantendo em algum lugar do século XX e nos impedindo de conhecer a democracia do Século XXI

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Critica (!) literária

A partir desse post começo a escrever minhas opiniões sobre alguns livros que li. Não espere opiniões de um especialista, muito pelo contrario, apenas opiniões de um sujeito qualquer.


“A Volta do Idiota” de Álvaro Vargas Llosa, Carlos Alberto Montaner e Plinio Mendoza.



Como primeiro livro a ser analisado por esse sujeito qualquer, escolhi “A Volta do Idiota”. Vamos ao resumo do livro: Continuação do livro “O Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano” que ataca os “idiotas” – no entender dos autores, esquerdistas radicais e admiradores de Caudillos e ditadores – e advoga em defesa de uma ordem (Neo)liberal.

Comprei o livro por causa da interessante serie de documentários de Álvaro Vargas Llosa sobre a América Latina, dos quais só vi dois, mas serviram para atiçar meu interesse. Não nego que ,enquanto lia, acabei acreditando em muitas das coisas mais estapafúrdias que os três autores escreveram. Felizmente, já retornei ao mundo real para ver que as idéias do livro passam longe de serem consideradas sérias.

Vamos começar pelo “idiota” do titulo, é correto afirmar que muitos esquerdistas estão longe de ter os dois pés fincados na realidade (um exemplo é a afirmação de que nos EUA só existe “um” partido divido em dois setores, Republicano e Democrata, e depois aplaudir o uni partidarismo cubano). Mas os autores exageram e colocam muitos dogmas próprios da esquerda, como maior ação do estado, como coisas típicas de “idiotas” e põe como “inteligentes” os esquerdistas que professam os dogmas do livre mercado. A devoção a este segundo os autores, não é uma ideologia, mas uma “realidade” dos novos tempos dos quais todos os setores políticos devem se acostumar. Não a nada mais ideológico do que negar este caráter para o liberalismo e crer que todos os setores políticos devam professar o liberalismo como única opção é, no mínimo, ridículo.

Ainda sobre o “idiota” do titulo, os autores conseguem a proeza de inventar o paradoxo do “intelectual idiota”, ou seja, as obras intelectuais dessas figuras são importantíssimas, mas suas opiniões políticas são carentes de lógica e argumentos (o que, diga-se de passagem, muitas vezes não deixa de ser verdade). Eles não se limitam a AL, sendo encontrados no mundo todo. São eles: Noam Chomsky, James Petras, Ignácio Ramonet, Harold Pinter e Afonso Sastre, José Saramago é citado em apenas uma linha. Não há menções a Gabriel Garcia Márquez que professa todos os ensinamentos ideológicos que os autores desprezam.

A maior parte dos capítulos é dedicada aos governantes e aspirantes a governantes de esquerda da AL. Obviamente há muitas alfinetadas em Fidel Castro, Hugo Chavez, Nestor Kichner, Evo Morales e uma pequena alfinetada, em um na época recém chegado, Rafael Corrêa. Os aspirantes a governantes, ou seja, os que ainda não alcançaram os governos de suas nações são o Mexicano André Manoel Lopez Obrador e o peruano Ollanta Humala. Também fala de “recuperados” como Alan Garcia e Daniel Ortega (!...?). E claro os “esquerdistas vegetarianos”, que professam o livre-mercado ou algo próximo dele como Lula, o uruguaio Tabaré Vazquez e a chilena Michelle Bachelet (Hugo Chavez e Evo Morales são chamados de “esquerda jurássica”).

Reparando nesses capítulos encontram-se muitas coisas carentes de comprovação como, por exemplo, uma suposta conversa entre Hugo Chavez e Fidel Castro cujo propósito seria planejar a substituição da via revolucionaria para o socialismo por uma via sufragista, ou seja, o socialismo seria alcançado por via do voto. E fica a pergunta, como os autores deste livro tiveram acesso a uma conversa tão particular?

Outro defeito visível é o desconhecimento de que capitulo cada autor ficou responsável, o resultado muitas vezes é confuso e contraditório. Por exemplo: em um capitulo Lula e Tabaré Vazquez são tidos como bons exemplos de governantes de esquerda bem alinhados como o livre-mercado, mas em outro capitulo o autor põe os mesmos Lula e Tabaré como inimigos do livre-mercado. Obviamente os dois capítulos foram escritos por autores diferentes, mas o leitor não tem como saber quais eram.

O livro não se limita a AL, dedicando um pedaço de sua batalha contra os “idiotas” a Europa. Ataca-se o esquerdismo francês e seu partido socialista e também o “Buenismo” espanhol propagado pelo presidente José Luiz Rodríguez Zapatero, afirmando que ele deveria seguir os passos de seu antecessor José Maria Aznar. Elogia-se a terceira via do Trabalhismo inglês e da Social-Democracia Alemã.

Depois de rasgar criticas contra a esquerda latino-americana seus representantes e expoentes*, o livro preocupa-se em passar os exemplos que a AL deveria seguir como a Espanha de Aznar, Cingapura, o Leste Asiático, a Irlanda e a Estônia. Nem sinal da Islândia, talvez já deviam ter previsto a crise que se assolaria naquelas terras gélidas por causa do modelo que eles vêem como ideal, pena que esqueceram de prever a crise na Irlanda.

O livro nem sempre parte para a pura panfletagem (Neo)liberal com material difícil de ser levado a serio. O caso do capitulo dedicado ao Peru é um exemplo. Nele as afirmativas são convincentes e não totalmente desprovidas de fatos, como as causas da inclinação de Alan Garcia ao Liberalismo e o apoio que a esquerda deu a um general da ditadura militar peruana.

Destaca-se também a pequena sugestão de leituras indicadas pelos autores, não como “os dez livros para acabar com a idiotice” como pretendido por esses, mas sim como uma curiosidade sobre o Liberalismo moderno e, claro, como bons indícios de literatura como atesta o livro “O Zero e o Infinito” de Arthur Koestler.

Apesar dos bons momentos, os autores parecem advogar pelo pensamento único, negando o caráter ideológico do Liberalismo e fazendo crer que quem é contra ele deve ser taxado de “idiota”. Poderiam ter dedicado esse titulo aos exageros retóricos que infecta a muitos membros da esquerda como a apologia ao regime Castrista (e negação do caráter ditatorial deste) e o Anti-Americanismo que, muitas vezes, beira a tolice. Ao invés disso, optaram por fazer um panfleto que se assemelha aos de esquerda por considerar para a AL um único caminho possível, do tipo “nós estamos certos e eles errados”.


Nota:4,5


*Os expoentes da esquerda que me refiro são personalidades e movimentos sociais como Frei Beto, Maradona e o MST, atacados pelo livro. Surpreende que, dentre esses ataques, não sobra nem para as Mães da Praça de Maio, de grande importancia para a redemocratização da Argentina.

domingo, 24 de maio de 2009

Sobre heróis e vilões

Há pouco tempo atrás, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, proferiu um polêmico discurso na conferencia da ONU que pretendia tratar do racismo, cujo conteúdo, carregado de teor religioso, atacou Israel, os EUA, o poder de veto dado aos membros do conselho de segurança da ONU e o mercado. Alem do fato de que importantes países ocidentais, mais Israel, boicotaram a conferencia com a desculpa de que ela se transformaria em um palanque anti-semita, um grupo de representantes, todos vindos de países europeus, decidiu retirar-se durante o discurso como forma de protesto. Mas Ahmadinejad obteve a proeza de arrancar aplausos não apenas de povos do Oriente-Médio que não gostam da presença ocidental em seu território e se identificam culturalmente, em alguns aspectos, com o Irã. Obteve palmas de um tipo bem conhecido nessa região do Sul da linha do Equador, o militante de esquerda que sonha com o socialismo, sente certo ranço pelo império do norte e, finalmente, idolatra, de forma não critica, Fidel e Che Guevara.

Um bom exemplo pode ser conferido no mundo do ciberespaço. Em Blogs como o Vi o Mundo - que traduziu o discurso de Ahmadinejad – e em sites como o Observatório da Imprensa, nas alas dedicadas aos comentários pipocaram manifestações favoráveis ao discurso de Ahmadinejad. Coisas do tipo “o Irã mostra a sua superioridade moral sobre o Ocidente” ou “o Irã, em seus séculos de existência, nunca invadiu uma nação, enquanto os EUA já invadiram praticamente todo o mundo”.

Não demorou para vir o balde de água fria. Pouco tempo depois do discurso polêmico, viu-se a noticia de que o regime iraniano executou uma jovem pintora acusada de matar a prima. O problema é que as evidencias do crime demonstravam que só poderia ter sido cometido por um destro, e a jovem era canhota. Não importou, cometeu-se o chamado “homicídio legal” quando o próprio estado mata uma pessoa. Sobre isso, os mesmos que manifestaram a “superioridade moral” do Irã ficaram calados. Pior, alguns continuaram manifestando a tal superioridade como se o dito “homicídio legal” nunca tivesse ocorrido. Era uma “invenção da mídia” alguns diziam.

O grande lance é que, com aquele discurso, Ahmadinejad encarnou a versão moderna do individuo que, com suas idéias iluminadas, derrubaria o império opressor dos povos e seus cúmplices. Ou seja, a versão moderna daquilo que a esquerda latino-americana com pouco senso critico chama de herói. Como diria o jornalista Laster Bangs: “eles não seriam heróis se não fossem infalíveis, na verdade não seriam heróis se não fossem uns cães sarnentos miseráveis, os parias da terra, e mais, a única razão para se construir um ídolo é jogá-lo por terra novamente”. E como eles caiam por terra.

Vamos começar pela esquerda, Fidel e, claro, Che. Os dois protagonistas da revolução cubana que derrubaram um governo ditatorial corrupto e instalaram o primeiro regime socialista do hemisfério ocidental a poucos quilômetros do maior império capitalista do mundo. Uma pessoa ligada a esquerda mais radical tendera a falar que Fidel criou os melhores sistemas de educação e saúde da América Latina (o último quesito é discutível), que o IDH de Cuba é o mais alto deste lado do continente e, finalmente, que Cuba foi o único pais com peito de encarar os EUA e sobreviver. Alguns mais exaltados dirão ainda que Cuba é a “verdadeira democracia”. Porém não é nenhum mito que Fidel, no auge de seu governo, perseguiu desafetos políticos. Aderiu a uma política de moldes stalinistas que perseguia não apenas os desvios políticos como também os morais. Recorreu a políticas econômicas falhas como a da produção de cana nos anos 60. Manteve durante o seu governo apenas um partido político fantoche. E, claro, mandou um bocado de gente para o famigerado “Paredon”.

O fotogênico Che Guevara (foto a esquerda), cujo rosto até hoje ilustra camisetas no melhor molde do consumismo, pregava que a situação da América Latina só seria melhorada por via da luta armada. Também não era nenhum humanista, tinha uma intimidade com arma como poucos têm e não tinha receio em matar a sangue frio. Lógico, que se algum dia você falar que Che era um assassino para um de seus admiradores, ele vai simplesmente te chamar de reacionário e que ingere lixo da grande mídia. É um romântico, no mal sentido.

A direita também tem heróis. O que dizer de Duque de Caxias (foto a direita), patrono das nossas forças armadas, que derrotou os exércitos de Solano Lopes na Guerra do Paraguai. Para uma parte dos brasileiros o herói maior de nossa nação, para a outra parte, o sujeito que detonou praticamente com 2/3 da população paraguaia e praticamente deixou o país de Solano Lopes com uma população masculina quase inexistente.

Para a turma ligada ao lado direito da força, as “revoluções” militares que tomaram o poder para salvar a pátria dos “caudilhos” e “comunistas” tem um significado praticamente heróico. Ainda hoje, não resta duvida de que ainda existe gente - principalmente civis - que acha que os governos militares foram necessários. Poderiam alias fazer camisetas com o rosto do Pinochet estampado para se contrapor as camisetas do Che Guevara.
Não podemos nos esquecer de quem elegemos pra ocupar o lugar de vilões. Vou começar pelo maior deles, os EUA. A raiva que certos setores da nossa sociedade, em sua maioria de esquerda, sentem pelo governo e o empresariado norte-americano é tamanha, que não apenas se dão ao luxo de criticar a política externa dos EUA – que não raro é de fato agressiva – como também o ambiente interno norte-americano. Não é difícil encontrar em blogs comentários tratando os EUA como se fossem uma ditadura liderada pelas grandes empresas e que o presidente não passa de um “relações publicas” (e o presidente do Irã é o que ?). Como os vilões fazem os heróis, Fidel e Che têm um grande debito com o imperialismo norte-americano.

Como para essa turma os EUA não têm aspectos positivos, eles fazem questão de lembrar que a constituição norte-americana, a primeira com as características do Estado moderno, não aboliu a escravidão. Também é importante lembrar que os EUA destruíram a nossa cultura exportando a deles para o nosso território, mesmo que tenha muita coisa boa que não mereça ser chamada de lixo cultural.

Como o mundo da política divide-se em direita e esquerda. O inimigo principal será sempre o outro lado. Para a esquerda a direita é astuta e maliciosa e que está disposta a tudo para manter o status quo. Para a direita a esquerda são um bando de insanos que estariam dispostos a entregar suas terras ao MST e separar suas casas ao meio. Qualquer sinal do outro lado será sempre visto como algo execrável.

Nosso continente sempre foi pródigo em criar heróis e vilões. Os primeiros tidos como donos de grandes virtudes capazes de mover montanhas. Os segundos seres destrutivos e monstruosos que estariam dispostos a tudo para alcançar seus objetivos. Porém sempre nos esquecemos que os únicos que fazem jus a essas palavras ou são de alguma mitologia, ou são personagens de historias em quadrinhos.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Pérolas da Tv a cabo: Fox News










Nunca acompanhei um programa se quer do canal de noticias Fox News. Toda vez que mudava para aquele canal, não ficava mais do que dez segundos. Também não fazia o mínimo esforço para traduzir o inglês acelerado daquela turma. Na verdade, a única coisa que ficava gravada era a musiquinha tosca que tocava durante os intervalos.

Antes de ir direto ao ponto, vou falar um pouco sobre o canal. O Fox News tem uma regra de ouro que é a seguinte: se você é conservador, não importa o quão absurda é a sua idéia, você ta dentro. Nas minhas “zapeadas” pela TV a cabo era possível confirmar isso, era comum encontrar figuras como Ann Coulter, a advogada que defendeu uma das acusadoras de Bill Clinton por assédio sexual aproveitando a notoriedade para divulgar suas idéias absurdas e Mike Huckabee, o ex-pastor evangélico que tentou concorrer a presidência pelo Partido Republicano, mas foi derrotado nas previas por John McCain e que ganhou um programa próprio no canal. A critica a esquerda é a missão dos seus jornalistas, como uma “Veja televisionada”. É propriedade de Rupert Murdoch, o maior magnata de comunicações do mundo.

Pois bem, ultimamente, quando estava “zapeando” pela TV, vi naquele canal uma coisa que me chamou a atenção. O apresentador, um tal de Glenn Beck, falava de forma extremamente sarcástica sobre a crise e a estatização de grandes bancos, comentando que esse era o momento para instalar um Estado socialista nos EUA. Depois, para a minha surpresa, ele chamou o convidado do momento: o lider do Partido Comunista dos Estados Unidos (CPUSA). É como se uma raposa fosse voluntariamente para a toca dos leões: crê-se inteligente o suficiente para ludibriá-los, mas acaba cedendo ao ambiente desfavorável.

Com essa entrevista, o apresentador tinha como objetivo simplesmente avacalhar Barack Obama. Durante a entrevista, ele tenta comparar Obama com Lênin, fala que o presidente Norte-Americano tem “tendências marxistas” pelo “fato” de que cercou-se de marxistas durante a vida toda e que agora a uma “diferença vacilante” entre os EUA atuais e os de antes de Obama. Ajuda também a simpatia do líder dos comunistas americanos por Barack Obama, do qual, apesar de não ser socialista, representa uma “liderança popular”.

Depois a entrevista descamba para a economia e depois para a batalha ideológica. Com um ar de piadista, o apresentador muda seu alvo para o convidado e passa a atacar as posições ideológica deste. Dentre os ataques, há a tradicional contagem do numero de mortos pelos regimes comunistas, o que gera uma pérola: quando o entrevistado tenta rebater lembrando que o outro lado foi quem criou Hitler, o apresentador fala a tradicional abobrinha lingüística de que Nazista significa “Nacional Socialista”, portanto era uma política de esquerda.

Eu, que nunca fui socialista, mas também não sou nenhum simpático do conservadorismo, achei tudo algo muito cômico. Pude constatar duas coisas: que é possível criar uma “veja televisiva” e que não é só a nossa TV aberta que contem bizarrices.

Criando emissoras de TV que transmitem pérolas como essas, não é a toa que tanta gente chiou quando Rupert Murdoch comprou o Wall Strett Jornal.

sábado, 27 de dezembro de 2008

O que Tom Jobim, Caetano Veloso e Bob Dylan tem em comum






Já se passou mais de quarenta anos que um dos eventos mais bizarros relacionados à ligação da cultura nacional com o combate a ditadura militar, e tudo que estivesse a ela aliada, se realizou: a passeata contra as guitarras elétricas. Essa idéia maluca de Geraldo Vandré - que na verdade era apenas uma forma de culpar Roberto Carlos e sua trupe pelo desinteresse do grande publico pela MPB e, conseqüentemente, pela baixa audiência do programa apresentado por Vandré na Rede Record, Frente Única, dedicado a MPB- resultou na mais estapafúrdia manifestação “antiimperialista” que já ocorreu na historia desse país. O “anti-imperialismo” se refere ao fato de que a intenção dos manifestantes era denunciar a “infiltração” da cultura Anglo-Saxônica (Norte-Americanos e Britânicos em geral) na cultura brasileira, invasão simbolizada pelo Rock n’ Roll e pelo seu principal instrumento: a guitarra elétrica. Dentre os participantes, figuras conhecidas e curiosas: Geraldo Vandré obviamente, Edu Lobo, MPB4, Jair Rodrigues, Elis Regina e Gilberto Gil.

Todo mundo sabe que, no tropicalismo, Gil se entregaria de corpo e alma a guitarra elétrica; Elis Regina utilizaria o “inimigo” com freqüência em seus shows que, muitas vezes, beiravam o Rock. Mas a curiosidade fica pelo fato de que a música de alguns puristas como Geraldo Vandré e Edu Lobo já contava com uma quantidade bem poderosa de influencia estrangeira. Os dois foram expoentes da segunda geração da Bossa Nova, gênero que, como diria Paulo Francis, é “50% Jazz”. Por mais que Vandré tenha tentado se afastar da influencia estrangeira da Bossa, não adiantou, é só ouvir algumas de suas músicas. Edu Lobo, por sua vez, nunca se distanciou da batida jazzística, suas composições confirmam aquilo que Francis disse: um equilíbrio entre o Samba e o Jazz. Procure a música "Borandá", ouça e veja se estou certo ou errado.

O mesmo estilo que era tão bem representado por Vandré e Lobo, já foi atacado por nacionalistas que, da mesma forma que os acima citados afirmavam sobre o Rock e a Guitarra elétrica, falavam que era uma afronta a cultura nacional, uma contaminação que empobrecia a música brasileira e que curvava a cultura popular aos porcos imperialistas do norte.

Na época, o Brasil vivia o período mais “americano” de sua Historia. Era pleno período pós-segunda guerra, os norte-americanos eram propagados como tudo aquilo que o brasileiro sonhava ser: fortes, heróicos, poderosos, amorosos, bonitos, inteligentes e, principalmente, livres. Tudo que era bom para os americanos era bom para os brasileiros. Consumia-se tudo aquilo que estivesse relacionado aos EUA: do obvio cinema até, acredite se quiser, livros. Cenas de cinema em que os protagonistas degustavam livros de John dos Passos e William Faulkner maravilhavam os espectadores brasileiros, que corriam para as livrarias para comprar seus exemplares. Críticos da americanização do Brasil existiam logicamente, os mais radicais eram remanescentes do lado mais extremo do Estado Novo- estes protagonizaram a bizarra tentativa de substituição do Papai Noel por uma figura indígena.

Para essas figuras, não existia símbolo mais puro do nacionalismo brasileiro do que a diversidade musical brasileira: do sertanejo ao samba passando pela erudição tropical de Villa-Lobos. A Bossa Nova era, portanto, a gota da água contra o purismo nacionalista. Devem ter pensado os nacionalistas: “como podem um bando de fanáticos por Frank Sinatra misturar o nosso amado samba com este sub-produto ianque”. Tom Jobim e João Gilberto eram constantemente alvos de criticas por sua influencia jazzística.
Passada mais ou menos uma década, foi à vez de Caetano Veloso ser visto como novo símbolo da contaminação ianque na música brasileira. Episodio que serviu mostrar que, se tratando de música, a esquerda é tão conservadora quanto à direita. O cenário foi o terceiro festival musical da Record; a platéia repleta de membros da UNE e outros estudantes universitários de esquerda, ainda animados com a passeata citada no inicio desse texto. Caetano subiu no palco acompanhado do grupo de Rock argentino Beat Boys. Logo trataram de mandar os primeiros acordes da música “Alegria, Alegria”. O barulho estridente da guitarra na introdução deve ter soado para os estudantes como um tri tono soaria para um bando de religiosos medievais. Não tardou para virem às vaias . Caetano respondeu: “Está e a juventude que quer tomar o poder? Se vocês forem em política como são em estética, estamos feitos”. O júri, que contava com figuras como o poeta Ferreira Gullar o humorista Chico Anízio e o cantor- e maior imitador de Roberto Carlos- Sergio Cabral, deu para Caetano o quarto lugar. Os estudantes não demoraram para taxá-lo como “alienado” e “cúmplice do imperialismo cultural”.

Caetano não foi o único atacado por “puristas” pelo uso da guitarra elétrica e do Rock n’ Roll misturados com a musica tradicional. No solo ianque, o mesmo que oferecia a munição para deixar os ultra-nacionalistas brasileiros, de esquerda e de direita, espumando pela boca, Bob Dylan, que na época era o cantor de Folk Music mais popular do pais e que atraia multidões para cantar hinos como “Blowin’ in the Wind” e “Mr. Tamborine Man”, chocou seus admiradores quando começou a misturar sua música Folk com, adivinhem só, a guitarra elétrica. O público era muito semelhante aquele que vaiou Caetano Veloso: estudantes universitários de esquerda. Os shows de Dylan passaram a ser acompanhados de vaias, arremesso de objetos para o palco e, inclusive, xingamentos como “Judas”. Apesar de excluírem a metáfora do imperialismo, os ouvintes de música Folk tradicional lembravam os “puristas” musicais brasileiros quando afirmavam que a guitarra elétrica era representante de um ritmo “alienado” ou desligado da critica as mazelas que afligiam a sociedade norte-americana naqueles tempos.

O que une Jobim, Caetano e Dylan é o fato de que todos eles foram alvo de ataques de conservadores, cada um no seu contexto histórico, que desejavam que a cultura fosse como um elemento isolado e que não se mistura-se com nenhuma forma suspeita, ou seja, foram vitimas do medo do desconhecido.